segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Caros alunos e alunas: Estou com problemas de saúde, além de sentir-me fragilizada pela “mudança” situacional e contextual, vários aspectos contribuíram para um mal estar generalizado. Raduan Nassar em seu texto "Lavoura arcaica" nos lembra que é "difícil determinar onde acaba nossa resistência", mas estou certa de que há indícios que não podem ser ignorados. Esses sinais surgiram em mim de uma forma muito assustadora, no fim da tarde de terça-feira, 26 de agosto: travamento da mandíbula e contração dos músculos da face, sintomas decorrentes de situações estressantes. Alguns alunos puderam presenciar tal transtorno. Enfim, estou sob cuidados médicos e precisarei afastar-me da universidade, inicialmente, por um período de quinze dias. Recuperei-me em relação à contração muscular abrupta, mas sob medicação. Agora, preciso cuidar das causas. Para isso, terei de ausentar-me das tarefas de trabalho. Texto do Nassar:

“(...) Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem, desenvolvendo seu espírito e aprimorando sua sensibilidade; ele dava a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência de um homem era inesgotável. Do meu lado, aprendi bem cedo que é difícil determinar onde acaba nossa resistência, e também muito cedo aprendi a ver nela o traço mais forte do homem; mas eu achava que, se da corda de um alaúde --- esticada até o limite --- se podia tirar uma nota afinadíssima (supondo-se que não fosse mais que um arranhado melancólico estridente), ninguém contudo conseguiria extrair nota alguma se a mesma fosse distendida até o rompimento. Era isso pelo menos o que eu pensava até a noite do meu retorno, sem jamais ter suspeitado antes que se pudesse, de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente (o que só vinha confirmar a possível crença de meu pai de que um homem, mesmo quebrado, não perdeu ainda sua resistência, embora nada provasse que continuava ganhando em sensibilidade)”. (Lavoura Arcaica, p.171-172)

Suponho que a Universidade não providenciará um professor substituto, embora tratarei, ainda, de informar-me sobre tal possibilidade. Entendo que o meu afastamento atrapalhará um pouco o cronograma de estudo para este semestre. Conversarei com o chefe de Departamento para verificar quais são as alternativas possíveis para o momento; mas, de antemão, organizarei leituras para compensar minha ausência e tomarei o nosso blog como ponto de encontro quando me for possível estar no computador, como agora o faço. As leituras, bem como a forma de “aproveitamento”, serão designadas correspondendo ao meu período de afastamento. No momento, não estou podendo concentrar-me para tomar tais medidas; no entanto, assim que for possível, providenciarei o que for necessário. Para encerrar, ainda que por ora, reporto-me mais uma vez a Nassar: Preciso, agora, de tempo e, assim:

“o tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? Que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? Que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite?”. (Lavoura Arcaica, p.97)

Conto com a compreensão de todos. Forte abraço. Maria Angélica