quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ler pode tornar o homem perigosamente humano

Queridos alunos e alunas, retomaremos as nossas atividades. Contarei com a vontade de vocês para além do cansaço do meado do semestre letivo e das chamadas de lojistas que já nos anunciam o Natal e o período de recesso! Contarei, também, com o compromisso selado, embora por alguns velado, de que a escolha de ser um profissional da linguagem ou de enveredar-se pelas discussões que a envolvem é séria, contínua e instigante, não se limitando, portanto, aos espaços e obrigações do meio acadêmico-institucional. Sendo assim, abraçada por esse ideal ultraromântico, convido vocês a refletirem sobre um texto que me encanta pela brincadeira no inteligente discurso revesso.
Ler devia ser proibido (Guiomar de Gramont)
A pensar a fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiam, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-os em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-lo com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas pra que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que deles esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, o livro estimula os sonhos, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.
É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde se livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista da sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contrato, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há correntes, prisões tampouco. O que pode ser mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, metrôs ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano."
Confiante na leitura "cuidada" e na lupa que construímos no dia-a-dia com a linguagem, aguardo comentários e conversas mais afinadas a partir dessa proibição camuflada. Com afeto. Angélica.

3 comentários:

Thaise Alves disse...

Antes de comentar sobre o texto propriamente, gostaria de agradecer à Prof. Maria Angélica pela contribuição em sala de aula e fora dos limites da mesma.

"(...)A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável.(...)"

Partindo desse argumento utilizado pelo autor para justificar o "perigo" que traz a leitura relembrei, insistentemente, meus primeiros dias dentro da academia. Leituras sobre o princípio da língua, teorias várias a respeito da linguagem, autores, textos, livros, mediados e trazidos por professores insanos. Esses "adultos perigosos" que se apresentavam como orientadores mostraram-me os primeiros passos para a subverção do meu mundo. Aquela que havia saído de casa adormecida em um mundo de sonhos rústicos, não foi a mesma que retornou. Havia em mim um desejo incontrolável de tornar-me perigosa e insana dentro da realidade existente. Era preciso ler mais.

Sr Secretário da129ª disse...

No afã do texto, e como dizia o bom diabo Roland Barthes, " quando mais nos afastamos do texto é precisamente aí ki nós chegamos nele". Direi pouco. A releitura pode ser mais subversa ki a leitura, principalmente a minha. Como anunciei, devo evadir do txt. Nao sou dependente kímico, sou apenas um poeta, porém, entendo ki os drogados, por exemplo, sao sim, importantes para a própria sociedade, ki precisa de certos lugares pra certas coisas. De modo ATÓPICO E UTÓPICO, a leitura também pode ser, num é nao?!?

Bruno de Castro disse...

È um texto belissimo e que deve ser passado não só aos docentes como tambem aos governantes.
As escolas não estão formando cidadãos criticos que façam da leitura sua independencia.